|
Certa vez, um monge e um discípulo foram visitar uma família muito pobre. Em sua visita eles descobriram que as pessoas viviam em uma fazenda caindo aos pedaços, em meio a um campo desolado, sem qualquer condição de sobrevivência decente. Seu único bem era uma vaquinha magra, perdendo o pêlo, mas que inexplicavelmente continuava a dar alguns litros de leite todos os dias. Este leite era a única coisa que impedia que aquelas pessoas morressem de fome.
O discípulo ficou desolado, mas como não havia muito que pudesse fazer, ele voltou para o seu templo com o coração na mão. O fato é que todos os monges faziam voto de pobreza, e por isso, não tinham como prestar ajuda outra que a oração. Além do voto de pobreza, os monges faziam ainda um outro voto, o de obediência. Por isso o discípulo não teve como discutir a ordem que recebeu de seu mestre naquela mesma noite. Aquela foi certamente a ordem mais estranha de todos os tempos: ele deveria ir até a casa daquela família e atirar a preciosa vaquinha de um precipício. Ele até quis contestar tal pedido absurdo, mas sua posição não permitia. Então assim ele fez, se dirigiu ao local, encontrou um belo de um precipício e de lá atirou o animal indefeso, que indubitavelmente se espatifou muitos e muitos metros abaixo. O peso em sua consciência foi demais. Sem entender o pedido do mestre, em pouco tempo ele abandonou o templo e sua fé, buscando uma vida comum, muito longe daquele lugar. Assim os anos se passaram. Muitos deles se foram, mas aquele ato odioso nunca deixou de assombrar os piores pesadelos daquele ex-discípulo. Por isso, quando ele se encontrou em uma situação melhor, decidiu visitar aquela família. Ele queria assumir seu grande erro, e então, quem sabe, tentar compensá-los pelo prejuízo de uma vida. Ele viajou então para o local daquela remota fazenda se perguntando se ainda encontraria aquela família. Quando lá chegou, ficou muito surpreso com o que encontrou. No lugar onde existia uma casa pobre e destruída, agora estava uma mansão. No lugar onde existiam campos sem vida, agora existiam plantações diversas, de uma beleza impressionante. O que teria acontecido com a família que morava ali. Ele não sabia dizer, e por isso resolveu perguntar a um dos funcionários que encontrou naquela propriedade: "Por favor, o senhor saberia me informar o que aconteceu com o homem que foi dono dessa propriedade há muitos e muitos anos?". A resposta foi simples: "Claro, ele está ali ao lado da piscina, fazendo um churrasco com os amigos". Então, sem perceber o que estava acontecendo, o ex-discípulo se encaminhou até a bela piscina e lá realmente encontrou o antigo dono da casa. Este, por sua vez, o reconheceu imediatamente, e foi logo dando as boas vindas àquele visitante de tantos anos atrás. Sem entender o que estava acontecendo, o visitante perguntou: "Meu amigo, o que aconteceu aqui? Sei que você tinha perdido sua vaquinha, porque fui eu o infeliz que cometeu tal crime. Sei também que ela era seu único sustento. De onde veio tamanha riqueza?". O dono da fazenda então explicou: "Realmente, quando acordamos e fomos encontrar nossa vaquinha morta precipício abaixo, nós achamos que nossas vidas também terminariam. Foi então que reunimos as poucas forças que nos restavam e decidimos plantar milho para sobreviver. O problema é que é demorado o crescimento do milho, por isso resolvemos plantar mandioca enquanto esperávamos. Da mesma forma ocupamos nosso tempo e plantamos algodão, feijão, trigo, e tudo o que nos foi possível. Quando o que nós plantamos pôde ser colhido, ganhamos mais dinheiro do que jamais imaginamos. Assim começamos a crescer, e a cada ano que passava, plantávamos mais, colhíamos mais, e ganhávamos mais e mais dinheiro para investir. Isso foi acontecendo, até que ficamos ricos e pudemos contratar funcionários para cuidar de nossas plantações. Então meu amigo, muito obrigado por ter empurrado a nossa vaquinha do barranco, pois com ela, talvez ainda estivéssemos vivendo a vida miserável que aceitávamos". Esta história me foi contada por um dos participantes do meu último curso de oratória. Naquele momento ela foi uma história bonita, mas só hoje ela teve um significado grande em minha vida. Hoje, encontrei, no meio de uma pilha de papéis antigos, uma carta que recebi me convidando para trabalhar em uma certa empresa. Lembro-me que naquela época a proposta era financeiramente interessante, mas que como era um emprego cujas tarefas não me agradavam muito, recusei a proposta. Anos se passaram e sei que se tivesse começado a trabalhar lá, continuaria na mesma posição até hoje, pois não existem oportunidades para crescer na empresa. Este emprego poderia ter sido a vaquinha da minha vida, pois certamente eu estaria me contentando com uma vida profissional infeliz e teria uma comodidade que me impediria de correr atrás dos meus verdadeiros sonhos. Hoje, como continuei lutando, ganho bem mais do que ganharia lá. Sou feliz, porque adoro meu trabalho, e sou mais feliz ainda porque, a cada dia que passa, conquisto novas etapas na escalada em direção aos meus objetivos. Muitos de nós costumamos ter uma vaquinha na vida. Nos apegamos a empregos ruins, a casamentos fracassados, ou a situações que nos parecem cômodas, mas que no fundo nos impedem de correr atrás de nossos sonhos. Precisamos abrir os olhos para o que é bom e para o que é ruim na vida de cada um de nós. Precisamos reconhecer os elementos que bloqueiam nosso crescimento pessoal; só assim vamos continuar caminhando. Quantas vezes você não desejou ter um emprego melhor, viver uma vida diferente da que você vive hoje. Quantas vezes você desperdiçou oportunidades por não querer correr riscos, preferindo a segurança de onde você está hoje. Acontece que cada oportunidade que você teve, e não aproveitou, poderia ter te levado muito longe. O fato é que você nunca saberá, porque ficou se agarrando na sua vaquinha magra e quase sem pêlo. Eu gosto de dizer que se você não jogar na loteria, você jamais ganhará na loteria. O mesmo acontece com sua vida. Se você se apega ao que tem hoje, e não tem coragem de tentar ter um pouco mais, você jamais terá um pouco mais. Por isso, se um dia perderes algo que hoje já tens conquistado, não te aflijas, pois muitas vezes o que você perde é apenas uma janela que se fecha em sua vida, e, como dizem: "Sempre que se fecha uma janela, se abre uma porta". Por tudo isso, abandone suas muletas, aqueles elementos que parecem te dar segurança e suporte, mas que no fundo estão impedindo que você corra em direção ao seu próprio sucesso. E se acontecer de você perder o emprego, ou qualquer outra coisa que normalmente seria uma grande desgraça em sua vida, levante a cabeça e pense que, quem sabe, o que você perdeu não passa de uma vaquinha que te impedia de crescer. |