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O Uso da Língua em Discursos PDF Imprimir E-mail
Por André Brasil   
Lembro-me de quando eu era pequeno e estava aprendendo a escrever. Na época eu tinha um hábito muito grande de escrever "pra" em qualquer um dos meus textos infantis. Lembro-me também que minha professora costumava sempre me corrigir, dizendo que não era certo escrever daquela forma; o certo era escrever "para".

Nunca entendi direito o porque daquela limitação, afinal de contas ninguém diz: "Comprei um presente para você". Na verdade dizemos "pra você". Os anos se passaram e a forma que não era aceitável acabou-se tornando inclusive uma exceção na gramática. Em português todo monossílabo tônico deve ser acentuado, com exceção da palavra "pra", justamente por ser uma contração de "para".

O fato é que quando estamos na escola aprendemos a língua escrita, e não a falada. Nossos professores se preocupam demais com a forma e com a aparência da língua que colocamos no papel, sem ligar muito para o que ela realmente representa. No meu ver, isto é errado, já que o único objetivo da língua escrita é expressar em símbolos a nossa comunicação, que sempre tem como base a nossa fala.

A verdade é que aprendemos uma Língua Portuguesa que acaba ficando na sala de aula, pois não tem aplicação prática em nossas vidas. Claro que o bom estudo pode auxiliar muito a nossa comunicação, mas o fato que as modalidades orais e efetivamente utilizadas vários segmentos da sociedade são desprestigiadas e desconsideradas faz com que nasça um preconceito lingüístico.

Aprendemos tudo de forma muito rígida, onde tudo o que não está registrado na língua formal é errado. Nossas gramáticas fortalecem além dos limites o conceito de "certo" e "errado" no uso de nosso idioma, sem considerar a adequação, ou seja, a percepção de que cada situação pode exigir um código de comportamento de linguagem adequado.

Quando falamos em apresentações, nos sentimos em situações mais formais, e tendemos a buscar apoio no português que aprendemos na escola, ao invés daquele que utilizamos no dia a dia. Falar para uma platéia traz uma tensão muito maior do que uma comunicação cotidiana, e dor isso fazemos uso de estruturas da língua que conhecemos bem devido aos nossos estudos, mas que não refletem a maneira natural de se falar.

Quando você se apresenta você não está escrevendo. Por isso você deve falar como normalmente fala, e não como escreve. Porém qual é exatamente a diferença entre essas duas modalidades de comunicação?

Quando falamos, bolamos o que vamos dizer à medida que dizemos. Não fazemos rascunho e nem planejamos cada palavra que iremos dizer. A língua oral é planejada a medida que executada, no desenrolar da conversação. Já o texto escrito costuma ser rascunhado, planejado, revisado. Desta forma ele assume um padrão muito mais elaborado do que seria em uma situação oral.

A maior vantagem do texto escrito é que ele pode ser tão bem planejado que quando lido pode comunicar exatamente a idéia de objetivamos. Seu problema é que ele não pode ser construído de acordo com as reações do nosso leitor. Em outras palavras você simplesmente não tem como prever qual será reação de quem lê seus textos.

Na modalidade falada, vamos dizendo o que percebemos que nosso ouvinte quer efetivamente ouvir. Se nós contamos uma piada e o público ri, praticamente pedindo mais, você pode contar uma nova piada, fazer uma brincadeira. Por outro lado, se seu público reage de forma negativa ao seu esforço, você sabe que precisa mudar o rumo do seu discurso.

Outro fator importante que diferencia a língua escrita da falada é um elemento estrutural. O texto falado costuma ser bastante fragmentado. Suas frases são quebradas e existem várias rupturas na construção que jamais seriam aceitas na forma escrita. A conseqüência direta disso é que tudo o que falamos costuma assumir um padrão menos complexo, e muitas vezes mais claro, do que faríamos em uma folha de papel. Ao se apresentar em público você deve levar esse elemento consideração.

Apesar do ensino pregar que a forma falada de nossa língua é errada, isso só acontece porque a gramática normativa é baseada na língua formal, escrita. Aprenda a separar o que pertence a cada diferente modalidade do idioma que você fala, aplicando o que for adequado nos momentos corretos.

Um outro fator importante a ser considerado quando falamos do uso correto do idioma é o sotaque com o qual falamos. Como moro no interior de São Paulo, freqüentemente vejo palestrantes falando sobre o seu próprio sotaque quando eles vêm se apresentar na minha cidade. Não são raras as situações em que eles dizem algo do tipo: "É muito bom estar aqui em São Carlos, pois poderei falar sem ficar controlando os meus Rs. Eu também venho do interior do estado, mas normalmente preciso controlar a forma como falo, pois me apresento por todo o país. Então, se hoje eu falar porrrrta, saibam que o faço com grande satisfação".

Este exemplo mostra bem uma das conseqüências de que as línguas mudam ao longo do tempo. É verdade que elas se transformam e adquirem características especiais em função de seu uso em áreas específicas. Dessa maneira, não adianta esperar que um carioca fale como um mineiro, e que um cearense fale como um gaúcho. O mesmo acontece com as diferenças sociais, já que alguém de classe social alta falará bem diferente de uma pessoa de classe social baixa. Estes são apenas alguns exemplos de uma diversidade que existe, mas que nem sempre é respeitada.

Essas diferenças ocorrem porque cada grupo desenvolve características específicas que vão se transformando a longo do tempo. Desta forma surgem até mesmo línguas e dialetos diferentes. Para um apresentador cabe verificar que não existe o "certo" ou "errado" lingüístico, mas sim o diferente.

Na região da Grã-Bretanha são faladas cinco línguas diferentes: o inglês, o gaulês, o gaélico, o córnico e o irlandês. Além disso são incontáveis os vários dialetos da língua inglesa que surgem, principalmente na região norte do Reino Unido. Apesar de tantas variações de existe o RP (received pronunciation), também conhecido como "Inglês da Rainha". Esta é a forma padrão de inglês e estrutura mais aceita no mundo.

No início do século XX, muitos pais enviavam seus filhos recém-nascidos para internatos onde eles poderiam aprender esta variedade do idioma inglês tal nestes casos eles ficavam anos sem ver os filhos, tudo para não "poluir" o aprendizado de uma forma de falar que evita a lia no futuro discriminações para aquelas crianças. Parece absurdo não é?

Até hoje, regionalmente, muitas pessoas falam com sotaque local, utilizando características específicas de cada região. Porém, em alguns momentos, quando em comunicação com pessoas de fora, é muito comum para aqueles que falam alguma das diferentes variações do inglês, assumirem a forma do RP, de um inglês neutro, que não só abole os valores de prestígio e desprestígio mas também facilitam a comunicação.

De maneira similar acontece em nosso país. Quando recebemos visitas de americanos, e sabemos falar inglês, utilizamos este conhecimento para nos comunicar. Raras são as vezes em que os americanos chegam no Brasil falando o nosso idioma. É isso que você vai precisar fazer quando estiver no palco.

Durante uma apresentação, fale o "Português da Rainha", ou seja, fale o idioma como ele é falado e aceito mais amplamente em nosso país. No Brasil, é evidente a influência da televisão na maneira de falar. As novelas, os programas de auditório, os programas infantis e até mesmo a dublagem dos filmes criam é uma nova forma de falar que penetra em todos os lares do nosso país.

Procure perceber o que é aceito mais amplamente por todo tipo de público, e tente se expressar desta maneira. A televisão é certamente uma boa fonte de informações para que possamos aplicar uma variação estilística na maneira como falamos. Esta variação é baseada em uma realidade de nossas vidas, pois falamos de maneira diferente quando estamos numa conversa informal do do que utilizamos em situações formais. Você precisa desenvolver mais uma variação: a que será utilizada ao falar em público.

Na hora de nos apresentarmos precisamos pensar muito bem em nosso público, para assim estipularmos a maneira correta de nos expressar. Acontece que nosso país se acostumou com o português da televisão, que normalmente segue os padrões do eixo Rio de Janeiro X São Paulo. Privilegie a sua maneira natural de falar, mas preste atenção no mundo que te cerca, pois se você falar com sotaque que seu público considere depreciativo, você pode encontrar dificuldades.

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